quinta-feira, 18 de junho de 2009
De cor e de alma
Nem sempre a nossa alma está colorida. Há dias de céu cinza, ânimos nublados e esperanças suspensas. Dias em que você evita olhar para dentro com medo do que vai encontrar. Algumas pessoas preferem negar esse período. As exigências da modernidade nos levam a isso. Estantes lotadas de livros de auto-ajuda nos dizem que precisamos perseguir a felicidade como se fosse um animal raro, uma presa valiosa. Uma verde colina em uma existência de terrenos baldios e esburacados. O desejo de ser feliz ganha muitas vezes uma expressão doentia, como se a alegria só pudesse acontecer em um mundo no qual todos os astros estão alinhados e não falte nada, nem amor, nem dinheiro, nem saúde, nem sucesso. E enquanto a felicidade não vem, alguns clamam por ela em nick names repletos de exclamações. A esperança é que a teoria do "Segredo" funcione e o desejo se torne real. Sempre me pergunto qual a verdade nisso. Será que precisamos negar os dias que nos fazem refletir sobre nossos erros? Fingir que não somos humanos o bastante para ter TPM, acordar de mau humor ou ficar tristes quando alguma coisa vai mal? O mundo evoluiu tanto que hoje é possível apertar um botão e decidir que sofrer é perda de tempo? Sei que muitas vezes é isso mesmo. Que até para ficarmos tristes a vida nos dá um limite. Que chorar não muda nada a não ser o estado da maquiagem. Que sentir pena de si mesmo só nos torna mais miseráveis. Sei de tudo isso, mas ainda assim, acho que quando o céu se fecha, não há nada de mal em deixar a chuva cair. Ficar triste sim, mas com a consciência de que é um sentimento temporário e de que a vida é mais do que isso. Não é exata, tão pouco eterna. O que é bom, porque nos diz que assim como a alegria, a tristeza não dura para sempre. Pensei nisso hoje por vários motivos. Um deles foi uma matéria sobre Antunes Filho, um famoso diretor de teatro de 79 anos sobre o qual pode-se dizer muito, mas duas coisas sobre ele me marcaram: a primeira é que, por ironia de linguagem, esse diretor não sabe dirigir. Viveu a vida toda sendo levado por um motorista particular. A segunda é que ele diz precisar da solidão e que foi estando sozinho, apenas com o silêncio e seu espírito, que aprendeu as coisas mais valiosas da vida. Achei muita coragem da parte dele assumir isso num mundo onde tudo está "maravilhoso", "100%", "nota 10", "melhor impossível". Pensei que quero sempre ter a mesma coragem de dizer a verdade para os outros, mas sobretudo para mim. Faça chuva ou faça sol, quero ter a força e a franqueza necessárias para não omitir nada. Até porque, a consciência, é a primeira etapa da cura.
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