quarta-feira, 12 de agosto de 2009
Palavras alheias
Um texto lindo, de uma descoberta recente: o blog da Silmara Franco (http://fiodameada.wordpress.com). Aos meus seguidores preciosos, perdoem a ausência e a pausa. Daqui a pouco eu volto...
Você, que sai para trabalhar todos os dias às oito e quinze em ponto e nem nota as florzinhas que caíram da velha árvore sobre seu carro durante a madrugada. Que desaprendeu a ouvir o vento e não reconhece mais o cheiro de chuva chegando. Que não tem nenhuma fotografia de nenhum amigo de infância.
Você, que cantou parabéns para seu avô calculando o quanto a festa tinha lhe custado. Que gostava de enrolar os dedos nos cabelos da sua mãe para dormir e hoje só dorme direito se estiver sozinho. Que já quis ter um dragão e não deixa seus filhos terem um cachorro.
Você, que puxou o tapete do seu colega de trabalho e depois foi chorar no banheiro, mais por raiva do que por remorso. Que não confessa para ninguém o que lhe dá medo de verdade, com medo da coisa acontecer. Que nem ficou sabendo que o bebê da vizinha já nasceu. Que não deixou sua filha ouvir o moço que tocava violino na rua, para não se atrasar na consulta com o médico. Que não se deu conta do quanto é parecido com seu pai.
Você, que nunca saiu de pijama na rua e não sabe o que é nadar pelado. Que entrava na casa da sua avó e sentia o aroma do pão assando e ia correndo beijá-la, louco de saudade e fome.
Você, que sabe o quanto seu funcionário caprichou no relatório, mas preferiu lembrá-lo dos itens que faltaram. Que veste um sorriso diferente conforme a roupa do freguês. Que não gosta que seus filhos brinquem descalços.
Você, que nunca levou um gatinho para casa e implorou aos seus pais para ficar com ele. Que nunca apertou a campainha e saiu correndo. Que não tira o relógio e nunca tem tempo. Que não percebeu que derrubaram o ipê amarelo da sua rua. Que sonhava em ver um show dos Beatles e hoje nem liga para a coleção deles bem ali, na sua estante.
Você, que nunca andou na contramão. Que não espera seu filho tentar amarrar o sapato sozinho e já vai amarrando por ele. Que não perdia um dia de Vila Sésamo e que hoje se irrita com tudo na TV que não seja jornal.
Você, que vê o olhar do cão faminto e engole o último pedaço do salgadinho. Que vai de carro a dois quarteirões da sua casa e acha isso normal. Que cruzou com a empregada hoje cedo na cozinha, disse bom dia mas não até amanhã. Que se irrita sempre com o motorista da frente. E com o do lado. E com o de trás também.
Você, que tem barco, mas não tem amigo de verdade. Que quando criança queria viajar numa nave espacial, e hoje diz para seu sobrinho de quatro anos que essas coisas não existem.
Você, que não tem ninguém lhe esperando em casa.
Você, que não tem ninguém lhe esperando em casa.

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