Blog tem graça?
Nunca tive paciência para diário. Pelo menos essa parte trágica da adolescência eu pulei. Depois de tanto tempo escrevendo por profissão e sempre tentando não fazer disso um martírio, até hoje não sei direito como cheguei aqui. Gosto de pensar que tem a ver com a história que a minha mãe contava para mim e para minha irmã gêmea. Ela dizia que quando ficou grávida alguém profetizou: "para escolher a profissão da criança que vai nascer, basta colocar as primeiras unhas em um objeto que a simbolize". É claro que a mensagem não foi dita assim, com essas palavras. Foi um conselho simples, desses que a gente ouve no interior e traz junto o carinho de quem deseja ter um ensinamento para oferecer. O fato é que ela acreditou. Tenho três irmãs e, coincidência ou não, hoje todas elas tem um dedinho de afinidade com os objetos que minha mãe escolheu. No meu caso e da Chris, sorte! Um livro de "Contos da Carochinha" estava dando sopa e ela colocou os nossos pedacinhos de DNA ali. Acho bonito pensar nisso quando entendo que os livros sempre foram para nós os melhores brinquedos. Outro dia a Chris lembrou que um dos primeiros foi "Marcelo, Martelo, Marmelo" e que aprendemos a ler em uma cartilha linda, toda ilustrada, dessas que não se vê mais. Como a gente morou boa parte da infância na fazenda, não tinha muito o que fazer além de batizar os grilos, os porquinhos e os cachorros com nomes de criança. "Maristela" era top of mind até quando o bicho era visivelmente bem dotado. Depois de gastar todo o nosso estoque de criatividade, a gente pedia para mãe ler a mesma novelinha impressa, uma espécie de gibi com figurinhas, só que as figurinhas eram fotos de gente de verdade, no melhor estilo novela mexicana em papel de gráfica de fundo de quintal. A gente gostava de ouvir o sons das palavras e de associar o que ela dizia às caras e bocas dos personagens. A maioria não fazia sentido, mas tudo bem. Era tudo muito simples. Simples e bom. Bom e importante porque aprendemos a ler por curiosidade, não por obrigação e, tirando o fato de que apanhamos muito na escola porque sabíamos mais que os valentões repetentes da turma do fundão, a leitura sempre foi uma coisa boa na nossa vida. Na minha e da Chris. Acho que um dia senti falta de saber se havia entendido as coisas que os livros diziam. Ou de discordar deles. Ou apenas de dar a minha versão. Em uma dessas, já na faculdade, a professora leu meu texto para a turma. Uma tentativa descarada de embromação que se chamava "O texto que eu não trouxe". Além de salvar minha pele, a espécie de versinho com rima pobre me rendeu um estágio em uma agência que já morreu, chamada "A3". Até hoje lembro dos primeiros anúncios. Alguns bem trágicos (eu precisava compensar a falta de diário de alguma forma), mas sempre escritos com o cuidado de criança que come um biscoito gostoso: pedacinho por pedacinho. Gosto de pensar no texto assim, como um tecido que você borda à mão e vai lendo na cabeça para não deixar nada fora do lugar. Penso nisso e me pergunto se vou conseguir regar mais essa plantinha e não deixar o blog morrer. A Abigail coitada, depois de passar muito tempo sem água, foi enterrada no vasinho aqui, perto de mim. Minha esperança é que a grande rede seja menos carente e saiba sobreviver sozinha. Entenda que há dias muito longos, pés inchados, dor no cabelo e olhos vermelhos que podem exigir mais da minha atenção. Se isso acontecer, a culpa não é sua tá bloguezinho? A mamãe ama você.
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