Os textos que a gente guarda
Descobri que gostava de escrever escrevendo. Não porque alguém tivesse me dito que os textos eram bons, mas porque aos poucos eles foram acontecendo sozinhos e me levando por caminhos diferentes. Um me rendeu um estágio. Outro um outdoor publicado para um cliente real, com o meu nome e tudo. Outro, meu primeiro anúncio na Revista Veja. Esse último foi inesquecível por um bom tempo, até uma entrevista seguida de chuva quando a pasta se desmachou de tão molhada. Só consegui guardar aquela sequência de palavras na memória. Era um anúncio para uma concessionária Peugeot e veio ilustrado com um layout lindo do meu amigo João Pedro, um português cult, dono de um talento único.
Hoje penso que esses escritos foram criados como filhos independentes, precisaram se virar sozinhos. Não por falta de interesse da minha parte, mas porque eu era tímida e verde demais para entender que precisava brigar por eles. Escrevia mil vezes, mil coisas e muitas vezes guardava tudo para mim. Uma grande bobagem que na época tinha razão de ser, mas, até por isso era uma imensa bobagem.
Ainda hoje me pergunto por que existem textos que a gente guarda. A impressão que tenho às vezes é que no lixo estão as melhores idéias e na rua só aquelas que a gente teve coragem de mostrar para o Diretor de Criação. Não devia ser assim. A gente devia ser como as mãe dos núcleos pobres da novela. Aquelas, simples e sábias que sabem de tudo um pouco e defendem os próprios direitos até o fim. Devíamos ser mães e pais dignos, orgulhosos dos nossos filhos, mesmo quando eles nascem feios. Mesmo que não sejam perfeitos. Sejam apenas nossos, com toda a beleza e dificuldade que isso representa.
Digo que devia porque continuo repetindo o comportamento juvenil ainda hoje aqui, em um blog que escrevo e nem sei se um dia vou mostrar para outra pessoa. A idéia é ser mais corajosa dessa vez. Vamos ver se consigo.
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