quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
A embalagem e o conteúdo
Audrey Hepburn é uma das embalagens mais bonitas que conheço. Não apenas pela elegância discreta que vive sendo copiada por pessoas de atitudes exatamente contrárias, mas pela capacidade de não confundir mulher e mito, atriz e gente. Gosto da contradição de seu estilo chic com a vida pobre no filme "Bonequinha de Luxo" e de como conseguiu trazer graça e leveza para o roteiro que pedia uma mulher de vida fácil. Um rótulo lindo e delicado que encobriu o título de prostituta, o que prova não apenas que as aparências enganam, mas também que as embalagens têm grande poder. Pergunto hoje se é consciente o quanto elas influenciam nossas escolhas. Afinal, é pela embalagem que as meninas decidem por um creme em uma prateleira repleta de opções. É assim quando vimos alguém na rua e precisamos olhar duas vezes. É assim com os garotos quando eles escolhem entre a loura e a morena [Pausa para registrar o quanto é difícil competir com todas aquelas Barbie's reluzentes dentro da caixa]. É assim quando a gente compra um livro imaginando se a história é boa ou ruim só pelo talento do designer da capa. É assim, muitas vezes, que escolhemos amigos, flores, lugares preferidos, marcas que combinam com a gente, empresas para trabalhar... Sem entrar no mérito verdade-mentira, bom-ruim, penso que é a beleza quem decide se vale a pena analisar o conteúdo. Então, se o frasco agradar, a gente abre o pote para sentir o perfume do creme; pára para perguntar o nome da pessoa cheia de estilo; dá uma chance para a loira mostrar que tem algo a dizer; lê a orelha do livro. Mas é quando a beleza não é exatamente uma unamidade? E quando os produtos, as pessoas e os livros não vêm com rótulo translúcido, layout moderno e harmonia de cores? Pode parecer dramático, mas o resultado é simples assim: os potes são condenados às prateleiras de baixo, os estilos são tachados de ridículo, as louras viram motivo de piada, os livros empoeiram na estante.
Que vergonha, né? Você se envergonha disso? Eu sim. Acho feio, raso e me pergunto por que funcionamos desse jeito. Deve haver muitas respostas, mas a que me ocorre agora é que dá trabalho não julgar pela aparência. Você precisa enfiar o nariz no pote de creme, correndo o risco de derrubar tudo e ser o centro das atenções no supermercado. Você tem que interromper a ditadura do relógio e parar para entender a combinação estranha de peças que a musa fashion criou. Você precisa ouvir ao invés de disparar suas respostas prontas. Você tem que passar os olhos pela página, nem que seja para ler o resumo. Ou seja, você precisa agir antes de concluir. E concluir é tão mais fácil, né? As mães e os paparazzi adoram. Se você comprou roupa nova é porque está sobrando dinheiro. Se a celebridade saiu sem aliança é porque o casamento está em crise. Boring, boring, boring!
Acho que parei para pensar sobre isso depois de voltar de uma reunião com um cliente ontem. Entre tantas coisas incompreensíveis que precisamos ouvir às vezes, saí de lá com um novo job para reformular vários rótulos, sem a mínima idéia do por quê e de que mensagem eles devem passar. A resposta é sempre "quero vender e crescer, não me importa como". Mas eu me importo! Penso sempre no "como", nos "por quês" e nos "pra quem". A verdade é que eu me importo, quase sempre. E se importar dá trabalho. Mas isso já é assunto para outro post.
Por hora, só quero registrar aqui, sem a pretensão de tentar convencer você: existem embalagens ruins que valem a pena. Aliás, existem produtos maravilhosos que são negligenciados por sua embalagem. Por falta de verba, de vaidade, do olhar atento de alguém, de uma agência de verdade ou simplesmente por opção, existem produtos e pessoas excelentes que estão por aí, esperando ser encontrados. E é tão bom descobrir essas preciosidades perdidas longe das luzes exageradas dos shoppings, fora dos lugares da moda, longe das músicas que estão bombando nas rádios, do modismo consumista dos ricos e famosos. É bom ter o dom de enxergar além dos requintes de marketing. Eu tento sempre. E, até agora, tem valido a pena.
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