segunda-feira, 29 de março de 2010
De onde eu vim
Meu avô materno era mineiro. O avô preferido que não conheci. Engraçado como a vida e as memórias de alguém podem fazer sentido para nós mesmo que não tenhamos compartilhado delas. E o que sei sobre o meu avô sempre fez muito sentido para mim. O nome dele era José e seu apelido "Cazuza". Foi essa coincidência estranha que me fez prestar atenção às letras do compositor polêmico. Acho que tentava entender se eles tinham alguma coisa em comum. E poderiam ter, mas, certamente o pai da minha mãe não acharia engraçado desfilar por aí de bandana, calça justa e defendendo a ideia do amor livre (totalmente livre.) O fato é que saber pouco sobre o Seu José foi ruim, mas também foi bom. Pude criar a minha versão sobre os fatos e imaginá-lo fazendo as coisas que minha mãe contou. Uma delas é que meu avô nasceu no interior de Minas. E isso nos leva ao início do texto. Voltar ao início foi o que eu fiz nessas férias. Voltei a um lugar onde nunca estive fisicamente e, ao chegar lá, percebi que era a terra do meu avô, mas também a minha. Belo Horizonte tem tudo a ver comigo e com a minha família. As pessoas falam baixo (e não são subestimadas por isso); se interessam de verdade por quem você é pelo o que você faz (e isso não parece caridade ou sinal de nobreza); a comida é simples (e por isso mesmo, deliciosa); as árvores são molduras delicadas para paisagens lindas (não é tôa que chamam BH de "Cidade Jardim"); as ruas são limpas; o Mercado Central é precioso e os prédios... os prédios são poesia (dessas que você não decifra à primeira vista, mas tem profundo prazer em ler); as velhinhas são lindas, bem arrumadas e andam em grupos de amigas, todas aparentando a mesma idade. Enquanto a gente espera que elas estejam em casa, cuidando dos netos, elas vão ao cinema, (em plena terça-feira à tarde); os bares são charmosos e decorados com capricho (mesmo os que poderiam ser apenas botecos); os jardins públicos são bem cuidados (até lírios existem neles) e, apesar de algumas partes da cidade se parecerem com qualquer cidade grande, uma coisa ali é extremamente diferente: você se sente acolhido e não um estrangeiro. Não viajei muito ao longo da minha vida e, em vários lugares onde estive pensei "eu moraria aqui", mas sempre havia uma ressalva; o clima, as pessoas, a distância. Em Belo Horizonte não encontrei ressalva nenhuma. Ao contrário. No último dia de viagem, senti um aperto no peito e uma vontade grande de chorar. Não entendi porque. As férias foram ótimas, encontrei tudo o que procurava, fiz tudo o que queria e recebi mais do que poderia pedir. Então entendi: foi difícil me despedir daquele lugar porque ele é de onde eu vim. É parte do que eu sou, do que acredito, do que gostaria de ensinar para um filho. É claro que a cidade não é perfeita. De 10 ou 15 taxistas, dois foram bem mal humorados (ok, um era totalmente surdo); a maioria dos vendedores têm pressa em terminar o atendimento, mesmo que você não compre nada e a comida, com raras exceções é bem cara. Mas isso é toda a realidade que encontrei em uma experiência feita de gentilezas e de 6 dias muito, muito aproveitados. Agora estou de volta. A essa terra que também é minha e da qual tenho muito orgulho. Mas, se me permitem, agora sei que tenho três naturalidades: sou goiana, com respeito até pelos sertanejos de vozes rachadas e calças indecentes; sou cuiabana, porque aqui me tornei quem eu sou e sou mineira porque, para essa terra, sei que posso voltar sempre.
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