A casa
É estranho mudar de casa. Um dos motivos é que leva tempo pra gente se reconhecer em outro lugar. Nos primeiros dias, o carro teima em pegar a antiga avenida, as costas insistem em estranhar o colchão e a memória prega peças até mesmo ao dizer onde está a escova de dentes. As cartas chegam no endereço de antes, o CEP parece que nunca vai ser decorado e os atendentes de telemarketing por sorte, não sabem onde te procurar. Mudar é quase sempre um recomeço porque nos faz pensar o que vale a pena trazer na mudança e o que merece ser deixado pra trás. A regra, quase sempre, é trazer o que é novo e deixar as certezas e objetos capengas no passado. Mas o passado diz muito de nós. O armário com gavetas caindo um dia já foi o espaço perfeito para as nossas roupas. Os livros amarelados já estiveram várias noites na nossa cabeceira e os riscos na geladeira velha fazem parte de coisas que a gente viveu. É perigoso se desfazer de tudo sem pensar antes. Corremos o risco de nos mudar para uma casa nova e sermos os únicos a ocuparem o espaço. E por mais bonito que ele seja, é bom que tenha vida, que conte um pouco de quem você é, de onde veio, dos amigos que tem, das escolhas que fez, dos presentes que já conquistou, dos objetos dos quais não quis se separar. Então, mudar também é saber o que trazer consigo do seu passado para se reconhecer no seu presente. Com raras exceções, ninguém é tão errado que não merece ser revisitado de vez em quando. Nenhum corte de cabelo, nenhuma fase ruim da moda, tão pouco nenhum traço da sua história é assim, tão fácil de ser descartado, sem trazer qualquer lembrança um dia. E se a gente não quiser entrar para o time dos desmoriados, com suas casas perfeitas e dignas de matérias de revista, é bom trazer um pouquinho de lixo. Uns cds arranhados, umas fotos antigas, umas roupas puídas. Ao olhar pra isso e se perguntar porque a gente trouxe, alguma coisa dentro de nós sempre vai responder: "porque isso também é você".


Oi tia...Lendo o seu post, lembrei das muitas mudanças que fiz com meus pais, e era exatamente assim que me sentia todas as vezes "me reconhecendo" no lugar.
E muita coisa do que ficou, que era velho...hj sinto falta, pois eram parte da minha história...mas...n tem como guardar tudo pra sempre...
Lindo!!!
Beijossssssssss.